quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A morte como uma obra de arte



Se a vida é tão curta como dizes 
por que é que estas me lendo agora?

Mario Quintana

Albert Camus, em seu livro O mito de Sísifo, disse algo que me surpreendeu bastante, chegando às raias da heresia afirma que o suicida prepara sua morte como uma obra de arte. Por mais trágico que fosse eles queriam que seu gesto significasse algo belo. Levando isso em conta, Rubem Alves assegura que “o mesmo deveria ser verdadeiro para aqueles que morrem sem se suicidar. Um velório deveria ter a beleza e a simplicidade de um haicai”.

Concordo com Camus, deveríamos ver encanto em algo tão sério. Nossos funerais são estagnados, massacrados pela feiura. Digo isso por que aprendi a contemplar a tristeza, não a cultua-la, mas, admira-la. Salomão, homem de grande sabedoria, garante com um pessimismo animador que melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois a morte é o destino de todos, e os vivos, devem levar isso a sério. Luto, funeral ou velório; um ambiente que provê uma indispensável perspectiva para a condição terminal universal. Nesses ambientes vemos sofrimento, e o sofrimento gera solidariedade. Quem toma consciência de sua finitude, limitação e debilidade consegue ser mais compreensivo, tolerante e inclusivo. Quem não chorou, não tem lágrimas para derramar em solidariedade.

Já li sobre gente que planejaram seus velórios, mas nenhum deles foi tão criativo como Jesus. Sabendo que não ia ter um funeral, Jesus antecipou-se, fez uma festa, comeu, bebeu e pela primeira vez os Evangelhos o mostra cantando. Festejou a tristeza com cânticos; um velório com o defunto ainda vivo. Foi morto ali, tendo sua carne devorada e seu sangue sugado por aqueles que o amavam.

Talvez seja cedo para pensar isso, mas quero meu funeral diferente desses arquétipos fúnebres tradicionais. Sei que haverá lágrimas, mas não quero que ofusque as gargalhadas de piadas contadas pelos cantos. Não quero aquelas parafernálias de metais enferrujados de funerárias – aquelas peças de metais onde se apoia o caixão, os castiçais e tudo mais –, o horror dessas coisas faz violência à tristeza. Como Mario Quintana, quero em meu epitáfio a frase: “Não estou aqui...”. Ou quem sabe com um acréscimo: “Mas caso eu esteja, vamos conversar em silêncio”.

Penso na vida como um incêndio, se as chamas foram belas e altas, as cinzas serão um complemento, nada é descartado. Desta vida tudo se aproveita.

©2010 Lindiberg de Oliveira

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