sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não conheço igreja missionária


Tenho pouco mais de uma década trabalhando com missões e nestes anos conheci várias pessoas que amam verdadeiramente a obra missionária. Conheci gente que chora quando ouve falar em outros povos, países, nações. Para mim é muito reconfortante saber que existem outras pessoas que possuem o mesmo sentimento que eu.


Em todos estes anos conheci estruturas, associações, agências e entidades que têm por objetivo alavancar o trabalho missionário. Conheci homens e mulheres com idade já avançada, cabelos brancos, mãos cansadas, mas que ainda fazem a sua voz ser ouvida na defesa diária do trabalho missionário. Conheci brancos, negros, amarelos e vermelhos que são ardorosos conscientizadores. Andei por diversos países de todos os continentes e conheci gente muito pobre e gente abastada com as almas inflamadas por amor aos perdidos.

Já andei por todo este Brasil e conheci os sertanejos, nordestinos, sulistas, praianos e interioranos, da capital e do brejo, dos apartamentos e das casas de "pau a pique". Encontrei também aqueles que se beneficiam do trabalho missionário. São os que defendem a causa por interesse próprio. Deixaram de defendê-la pelo Nome do Senhor e a estão defendendo pelo seu próprio nome. São pessoas que não têm coragem de trabalhar, de ir capinar, de suar a camisa. Então se embrenham pela seara e no meio de tantos se camuflam como se fossem dos nossos.

Mas uma coisa não conheci: uma Igreja Missionária. "Por que você diz isso?", alguém com certeza me dirá. "Minha igreja é missionária. Temos cultos de missões, mantemos missionários, recolhemos ofertas para enviar a eles, possuímos um excelente departamento de missões e intercedemos constantemente por eles". Bem, afirmo isso pelo seguinte:



1) Para uma igreja ser missionária precisa deixar de departamentalizar o trabalho de missões. Missões não é um trabalho que deve ser realizado em uma igreja por um departamento. Missões é A NATUREZA da igreja. Ao contrário do que acontece, o trabalho missionário não deve ser tido como mais um departamento entre tantos outros, brigando pelo seu espaço, lutando para ser atendido. Missões deve ser o objetivo final ao redor do qual todos os departamentos da igreja andam.

2) Para uma igreja ser missionária o pastor deve ser o principal promovedor do trabalho. Se a visão não partir do pastor da igreja, ela nunca será missionária. Poderá existir um excelente irmão ou irmã que leve o trabalho à frente, que promova, que divulgue, mas se esta visão não partir do pastor, ela dificilmente alcançará os demais membros. Não existe um culto missionário. Todos os cultos DEVEM ser missionários.

3) Para uma igreja ser missionária o trabalho missionário não pode possuir um caixa financeiro separado. Ao contrário do que vejo, não podemos criar um caixa separado para recolher a oferta missionária. Não deve existir nem oferta missionária. A oferta que mantém o trabalho missionário é a oferta que é destinada à igreja. O caixa que mantém o trabalho missionário é o caixa geral da igreja. Os dízimos e as ofertas que os irmãos entregam na igreja devem ser também utilizados para a realização do trabalho de missões (nacionais e transculturais). O que vejo são pessoas vendendo cachorros-quentes, doces, bolos e outras coisas para manter o trabalho missionário. O que vejo são igrejas que pensam que estão fazendo muito por direcionarem uma oferta por mês para o trabalho missionário. O que vejo são grandes empreendimentos recebendo grandes recursos enquanto os missionários têm de ficar esperando a vez de serem atendidos.

4) Para uma igreja ser missionária o alvo tem de ser o engrandecimento do Reino de Deus. Se em nosso trabalho missionário estamos mais preocupados em catequizar os alcançados de acordo com a nossa denominação, placa, estatuto ou regimento e esquecemos do evangelho de Cristo, isso pode ser qualquer coisa, menos missões. A preocupação não deve ser se estamos abrindo mais uma das nossas congregações, e sim que estamos abrindo mais uma igreja de Jesus. E quem irá dar prosseguimento ao trabalho serão aqueles que foram alcançados com o trabalho dos missionários enviados. Não estamos enviando "papas" que irão permanecer milênios com aquele povo, mas sim missionários que, quando percebem que seu trabalho ali acabou, que o povo consegue andar sozinho em Cristo, parte para outras terras onde a necessidade continua grande.

Sei que esta igreja existe. Por aí deve existir. Deve ser uma igreja pequena, onde os recursos são escassos, onde os irmãos são amorosos e querem ver o Reino crescer. Por favor, se você faz parte de uma me envie um e-mail e terei o maior prazer em mudar meu discurso para: conheço UMA igreja missionária.

ARIEUSTON GOMES
Diretor-executivo de missões da SEMADI - Secretaria de Missões da Assembleia de Deus - Ipiranga/SP, onde também é pastor adjunto.


Fonte: Matéria Revista Povos
http://www.revistapovos.com.br/exclusivo.asp

3 comentários:

  1. Maravilhoso seu texto, eu também não conheço uma igreja missionária, conheço igreja que missões é só mais departamento. Realmente nunca havia pensado nisso. Adorei seu texto. Paz!

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  2. Valeu, Rô. Ajuda a divulgar o blog, ok? Deus te abençoe! Pazzzz

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  3. Esse artigo fala da realidade de HOJÉ.
    Muito bom, meus parabéns !!!

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